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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

No trabalho, na fila do banco, na igreja, no lar, no bar ou na praia.


Durante dias de profundas reflexões, em uma experiência de total contato com sentimentos  tão antagônicos como a coragem, a fé,  os temores e a razão,  transitei pelas verdades dos profetas , pelas sendas do sacrifício cristão, pelos “caminhos do meio” do Buda, pelos ciclos personificados em Brahma,Vishnu e Shiva. Abracei também a Filosofia, da qual preciso para compreender e explicar.
 Quando baixei novamente os meus olhos no plano das realizações horizontais, percebi que o mundo das ideias e contemplações, embora seja um lugar seguro e por vezes necessário, cheio de mistérios encantadores e desafios intelectuais, é também um lugar  repleto de divindades, mas vazio da própria humanidade  que o criou.
Quando por lá estive, sabia que lá permanecia por um pequeno interregno. Um intervalo preciso, apesar da imprecisão das ideias e emoções. Lá confirmei que o sentido da vida é a própria vida, com as suas lutas inglórias, mas repletas de escolhas e de consequencias. Cada um escolhe para a própria vida uma luta qualquer. Para aqueles que não elegeram uma batalha, a vida não faz sentido. É apenas uma sucessão de dias e noites onde se procura substituir construções verdadeiras por prazeres imediatos e efêmeros. Mas sabemos que isso é uma questão cultural...
Agora aqui, escrevendo, pensei em alguns amigos que me cobram leveza. Talvez seja para esses que escrevo. Para os que sabem que, embora eu os sempre faça sorrir vendo graça em tudo, trago o peito carregado de preocupações e responsabilidades.   Gostaria de pedir-lhes que desconsiderem as questões ideológicas. Esqueçam as divergências entre os nossos “ismos” e apenas reflitam: Podereis dizer que o mundo que nos cerca é um grande parque de diversões?  Por mais que tenhamos o necessário para os nossos, nada tendes a dizer diante da carência de muitos? As contradições não vos incomodam?Não gostaríeis de viver em um mundo mais justo?
Um dos meus filhos dorme agora no sofá na minha frente. Além da minha presença em sua vida, quero que ele se orgulhe também de ter tido um pai que pautou a sua vida na tentativa de fazer uma revolução. Uma revolução pequena, simples, atrelada à profissão, coisa de “peão”, de iludido. Quero que diga que seu pai não pode lhe dar tudo, que tinha todos os defeitos do mundo, mas sabia muito bem reconhecê-los e se perdoar.  Que seu pai perdera o medo de assumir seus sonhos, porque a expectativa do outro encarcera o liberdade humana.
Por falar em liberdade, me permitam mais alguns questionamentos: do que vale poder se expressar e nada ter a dizer? Há liberdade na miséria? Há liberdade na cidade sitiada?  Na violência gerada pela ausência do Estado? Não! Não defendo uma ditadura, defendo a democracia verdadeira, na sua concepção mais profunda, como alternativa para um povo que já se acostumou a viver mal e cuja desesperança é alimentada por aqueles  que enriquecem sobre miséria alheia, que custeiam o luxo dos filhos com dinheiro público e que contam com a passividade idiota dos alienados.
Por fim, gostaria de ressaltar a importância que cada um de nós tem na construção da coletividade. Para muito além da caridade material, transformando dor em ação, inércia contemplativa em mobilização, História em experiência e fracasso em aprendizado. No trabalho, na fila do banco, na igreja, no lar, no bar ou na praia. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Memória da Família e a Família na Memória




            Ao iniciar um ano letivo, sempre procuro saber sobre o local de origem dos meus alunos e dos seus pais. Através dessa prática, procuro compreender a formação da comunidade que circunda a escola para melhor direcionar o trabalho em sala de aula. Nesses anos de magistério descobri que muitos alunos não têm noção das suas origens, sendo que o pouco que sabem não vai além do local de nascimento do pai ou da mãe. Os nomes dos avós ou local de origem destes, quase sempre desconhecem.  
            Essa descontinuidade na história pessoal do indivíduo pode influenciar negativamente na afirmação de alguns sentimentos, como o desejo de pertencimento que origina o nacionalismo e de auto-estima, importante elemento na busca pela cidadania. Não precisamos de muito esforço para perceber que as nossas relações sociais sofreram profundas alterações nos últimos 50 anos.  Considerando as necessidades imperiosas do imediatismo desvalorizamos o passado. E o vazio criado tem sido preenchido com informações massificadas.         
               O sociólogo francês Maurice Halbwachs afirmava que a memória é um fenômeno cultural, ou seja, que a nossa memória individual é um ponto de vista da memória coletiva. Se tudo que é cultural o é por ser transmitido ao longo das gerações, a “falta de memória” que hoje presenciamos na nossa sociedade é também um fenômeno cultural. Afirmava ainda, que o que consideramos relevante lembrar é também uma construção social, subjugando a memória individual à memória coletiva.
          Sendo a memória um fenômeno cultural, a família possui uma grande influência na sua valorização, mas a dificuldade de sobrevivência associada a fatores socioculturais alteram as relações familiares e a sua prática se torna muito difícil. Para piorar a situação, a influência dos avanços tecnológicos no nosso cotidiano tem contribuído para individualizar o ambiente familiar. Hoje muitas famílias passam um fim de semana “juntos”, porém absolutamente separados. Podem dividir o mesmo ambiente, mas não o mesmo assunto ou interesse. Muitas vezes uma falta de energia, de sinal da TV, ou o mau funcionamento da internet, se tornam grandes aliados na recuperação do convívio familiar, condição imprescindível para a conservação da memória da família.
         Pensa a experiência cotidiana e externá-la, promove o autoconhecimento e a compreensão da história individual. Pais que educam através das suas experiências, das suas histórias, sejam elas vitórias ou frustrações, contribuem bastante para o crescimento emocional dos seus filhos, além de iniciar o processo de compreensão do saber histórico ao se colocarem como protagonistas da História. O ideal seria que cada ser humano escrevesse as suas memórias ou que pelo menos se preocupasse em transmiti-las. Não há história que não mereça ser contada. O processo de massificação da informação e de deslocamento das prioridades afetivas que têm caracterizado as sociedades de consumo, diminui cada vez a outrora  básica necessidade de preservação da memória pessoal. Preservar a memória é prepará-la para enfrentar o desgaste do tempo sobre a tradição.  
       Outro sintoma desse distanciamento da memória é a maneira como as gerações recentes têm tratado os idosos. Na sociedade da informação, ser velho é ser ultrapassado. Vez ou outra, quando uma escola deseja resgatar a memória recente de um bairro ou cidade, o idoso é entrevistado, sua memória é registrada e depois transformada pelos alunos em redação ou desenho e acaba aí. Um dia, o filósofo iluminista e músico francês, Jean Jacques Rousseau disse: “Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice fazer uso dele.” Hoje, poucos são os idosos que possuem a oportunidade de exercitar o seu saber, geralmente por falta de ouvintes. No frenesi da evolução tecnológica, o apreço pela memória tem esmorecido e a informação tem sido confundida com conhecimento.
         Considerando o quadro de constante “emergência” em que vivemos, pode parecer utópico e despropositado nos preocuparmos com a preservação da memória familiar. Somos compelidos a adotar os valores da maioria, principalmente se a família, enquanto núcleo primário da construção da identidade, não desempenhar o seu papel ideológico. O posicionamento de cada um diante de tal realidade, dependerá justamente das suas experiências de vida, experiências essas que nos tornam únicos e especiais. E como dizem por aí: “Tudo que é especial merece ser lembrado!”

                                                                                                                                 Rogério Carvalho
Professor de História - Especialista em História do Brasil
Artigo publicado no Jornal Público Alvo- abril de 2011.